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Nosso (louco) amor!
Pode ser que ela venha me ver hoje à noite. Nosso (louco) amor está suspenso sobre um fino fio de arame. Sem regras, sem rotina, improvável, quase sem futuro... Digo isso porque o futuro não existe, e também porque sinto de uma maneira clara que o nosso (louco) amor, apesar de tudo, ainda está lá, latejante, pulsante, irracional, demente, disperto. Mas o que é "apesar de tudo" para o abrangente, desconhecido e revelador reino do amor?
Se ela vier, noite e dia serão uma só pessoa. Mas ela é uma amante imprevisível, poética. Que sabe exatamente o momento de chegar e me surpreender. Está conectada em minha alma de uma maneira atroz. Ainda não sei se age movida por ondas telepáticas, intuição feminina ou por pura bruxaria. O mais provável, conhecendo-a como julgo conhecê-la, é que ela seja uma exímia surfista das ondas do acaso.
O fato é que minha vida é esperá-la. O "apesar de tudo" não pesa sobre nós como pesa para os outros. Para os outros, o amor é um jogo de cartas marcadas, uma cartilha a seguir, algo extraído de letras de músicas e livros previsíveis, novelas de tv e falsos filmes românticos. Para o nosso (louco) amor todas as leis são transcendentes e provisórias. Ele tem sido errado para poder ser intenso e revelador. É um (louco) paradoxo luminoso. Um amor no temporal.
Um dia resolvemos testar as fórmulas convencionais: casamos, dividimos o memso teto, a mesma cama, noite após noite, as contas, os sonhos, enfim, fomos um casal tal qual manda o figurino. Só que não seguimos o texto e nem tampouco o figurino. E acabamos por penetrar numa galáxia desconhecida onde o amor era o sol entre milhares de sóis. E tanta luz acabou nos cegando.
E o nosso (louco) amor ficou ainda mais (louco) amor. É bem possível que ela não venha hoje. O acaso, afinal, é um oráculo ilógico. Resta-me um consolo da eternidade.
Detalhinho: Rememorei alguns fatos deixados pra trás. Minha vida em 2002 estava assim. Essa é uma crônica de Ciro Pessoa, um dos autores de Sonífera ilha. É só pra relembrar mesmo...
beijos