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Eu e eu mesma (parte III)

Senti um aperto no peito quando lembrei de meu filho, porque tive que abdicá-lo

por uma força maior. Com um pesar e um gole na cerveja, concordei comigo. Estudei, me tornei a melhor jornalista da cidade, ganhei admiradores e respeito. Por que? Pra compensar aquilo que, durante anos me foi cobrado: minha vaidade.

-         Eu só queria que ele gostasse de mim pela minha capacidade, pela minha inteligência. Durante cinco anos lutei pra isso. Infelizmente nos separamos e cada um tomou seu rumo. Até hoje não casou, não tem filhos e provavelmente também não é feliz. Sou casada com um homem que só pensa em Bovespa. Tenho uma casa que mais parece um Bunker de guerra, e tenho tudo o que o dinheiro pode comprar.

-         Quer uma dica? Corra atrás dele. Você ainda o ama. Vá! As coisas não são imutáveis. Pegue um avião e vá. Olhe pra você, está ficando velha porque está infeliz. 

-         Quem é você pra me dizer o que fazer? Só porque tem um casamento perfeito, um filho e um marido perfeito? Eu sei o que fazer da minha vida e não preciso de ninguém me dizendo num bar de quinta o que devo fazer.

Quando joguei uma nota de cinqüenta no balcão percebi que todo o bar me

observava.  Olhei para meu lado e não vi mais ninguém. Será que aquele tempo todo eu estava falando sozinha? Entrei no carro e liguei o som. Lá tocava um cd do Naldo Maranhão, que durante muito tempo embalou minhas noites de tristeza, e sem deixar de pensar um minuto no que eu tinha falado pra mim mesma. Entrei na garagem de casa e abri o portão com o controle. Havia um silêncio assustador. Talvez por um instinto, ao invés de entrar pela porta da frente, fui pela dos fundos. Quando abri a porta, flagrei meu marido transado com a empregada sob a mesa de mármore. Sem esboçar nenhuma reação, fui para meu quarto e fechei a porta. Sentei na cama e lá realmente comprovei: eu era infeliz. Desabei e chorei.



- Postado por: Moll flanders às 06h00 AM
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Eu e eu mesma (parte II)

-         Eu não entrei na loja. Então não vivi o que você viveu. Tomei outros rumos.  Vejo que você se formou, e é muito boa no que faz, por sinal. Casou, não é?

-         Sim!

-         E não é feliz.

-         Como você pode dizer isso?

-         Por que vejo em seus olhos. Não és feliz.

-         E o que você entende sobre casamentos, você nem é casada...

-         Sou sim. Veja, este é meu filho. Nesta foto ele está com seis anos.

O garoto era branco de cabelos negros e pele sedosa. Usava uma camiseta dos

Ramones, presente de natal do papai.

-         E o que você faz?

-         Dou aulas de História numa faculdade e Ensino médio.

-         Você parece ter uma vida muito feliz. Qual foi a fórmula?

-         Não ter entrado na loja. Já parou para pensar o quanto sua vida mudou depois de ter ido lá? Ela se dividiu em antes e depois da loja. Tudo aquilo que você passou, todas as lágrimas, o novo mundo que lhe foi apresentado... Hoje você é casada com alguém que não ama, não teve aquele filho e não pode mais tomar suas cervejas.



- Postado por: Moll flanders às 05h59 AM
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Eu e eu mesma!! (parte I)

Estava vindo do trabalho, eram sete e quinze da noite. O jornal havia dado um furo surpreendente e eu precisava estar lá sem arredar o pé. Todos estavam à flor da pele, pois aquilo traria a ascensão para o jornal. Um informante nos passou uma informação sobre desvio de verbas do governo estadual, e a mais de dois meses estávamos investigando. Finalmente reunimos todas as provas e, naquele dia íamos rodar tudo. Peguei as chaves de dentro da bolsa e entrei no carro. De repente senti um gosto de cerveja na boca, a muito não tomava um gole sequer. Liguei o carro e parti em direção a um barzinho escondido na cidade. Queria ficar só, conversar só. Sentei no balcão e pedi uma cerveja. Só estava eu e mais três pessoas no bar. Tocava no rádio uma música do Geraldo Azevedo. Ouvindo Dia Branco relembrei uma fase de minha vida. Complexa, traumática ou feliz? Se eu não tivesse entrado naquela loja? Se não tivesse me apaixonado?  Eis que, num piscar de olhos, alguém senta ao meu lado. Eu já tinha tomado quatro cervejas, mas não tinha bebido o juízo. Aquela era eu, mais bonita, mais jovem, com uma roupa diferente e muito feliz. Mas que diabos era aquilo? Parecia com as coisas que eu via quando fumava maconha ou usava pó nos tempos da faculdade. Ela – ou seria eu? – ficou me olhando com um leve sorriso nos lábios, meio que dizendo: então é você!!

-         Olá! – disse a “cópia”.

-         Olá! – Respondi.

-         A cerveja ta boa?

-         Ta ótima! Você quer uma?

-         Sim, vou te acompanhar.

-         Garçom! Mais duas.

-         Como está o jornal?

-         Bem, obrigado.

-         Não imaginava que sua vida estivesse assim. Você não parece bem. Ok?Bem, você queria saber como estaria sua vida se não tivesse se apaixonado por aquele vendedor... Eu sou você se você não tivesse entrado na loja.

-         Como assim?



- Postado por: Moll flanders às 05h58 AM
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